Fragmentos da vida real

Estava eu na mesma rodoviária de sempre e sempre em um horário diferente, como sempre, e presenciei duas pequenas histórias, fragmentos da vida real…
Chamarei-as de: O Corcel e Manteiga no Palito

O Corcel
Acendi um cigarro e fiquei esperando meu ônibus, que chegaria às 13h, segundo a velhinha que me recepcionou e me vendeu a passagem. Ainda faltava uns bons 10 minutos, eu poderia fumar meu cigarro e ainda caminhar até o banheiro da rodoviária para tomar um pouco de água… Mas resolvi fumar sentado.
Uma mulher jovem, de uns 20 e poucos anos, bonita (bem bonita) e com um perfume fortíssimo – e bem ruim – sentou-se ao meu lado. Continuei sentado, mesmo fumando ao lado dela, que parecia não fumar. Cheguei primeiro e aquele banco era meu. Se ela estivesse ali antes de mim eu não teria acendido um cigarro… Ela sentou ao meu lado sabendo que eu estava fumando.
O celular dela tocou, ela atendeu e segue o diálogo:
_Oi, Victor. – Disse ela, arrumando os cabelos.
_…
_Sim, sim. Estou chegando no serviço, entrando no prédio.
_…
_Hoje tenho bastante coisa pra fazer, não sei que horas chego em casa.
_…
_Ah, é verdade. Tudo bem. Não precisa se apressar. Pode jogar tranquilo.
_…
_Bom jogo. Vê se faz um gol pra mim, Vi. Tá?
_…
_Paixão, tenho que desligar. Vou entrar no elevador. Nos falamos mais tarde.
_…
_Também te amo. Boa tarde. Bom serviço, chuchu. Beijos!
Desligou.
Tudo que ela falou, nessas poucas frases, foram faladas enquanto ela estava ali sentada, bem ao meu lado, enquanto eu fumava, no meu banco.
Pegou o espelho da bolsa e começou a retocar a maquiagem. Ela usava aliança.
Ouvi uma buzinada. Ela também.
Olhei pra ver o que se passava. Ela também.
Era um Corcel verde, bem velho e cheio de ferrugem. No volante, um rapaz novo, também com uns 20 e poucos anos. Deu um sorriso pra ela.
Ela guardou o espelho e a maquiagem na bolsa e levantou, começou a ir em direção ao Corcel. Tossiu, se virou, me olhou e disse:
_Tem que respeitar as pessoas que não fumam. Mal educado!!!
Entrou no Corcel verde caindo aos pedaços, deu um beijo demorado na boca do rapaz e saíram, cantando pneus.
Coitado do Victor.
Espero que, pelo menos, faça um gol no jogo de hoje.


Manteiga no Palito
Meu ônibus chegou, entrei, fui para o assento marcado e sentei-me, novamente.
Uma senhora sentou ao meu lado e começou a tocar o próprio rosto. Um lado por vez.
Um lado. O outro. Um lado. O outro. Um lado. O outro. Um lado. O outro.
Me olhou, quase implorando para que eu puxasse conversa. E eu puxei, claro.
_O que houve?
_Como assim? – Indagou a senhora.
_A senhora está tocando o próprio rosto faz um bom tempo. Sei lá. – E ri.
_Está muito frio, rapaz. Estou congelando.
_Ah, nem está tão frio assim… Deve estar uns 15º?!
_Então!
_Ué, o tempo está ótimo. Ainda fica mais frio…
_Não sei como vocês não passam frio. Olha tu, só de camiseta.
_Ah, mas…
_Mas?
_A senhora. Olha aí, é um fiapo! Tem que engordar um pouco.
_Que é isso, diabo? Vira essa boca pra lá. Gosto de ser magrinha. – E riu.
_Então vai passar frio. – Disse, amigavelmente.
_Semana que vem já volto pro Maranhão.
_Ah, então está explicado. Tudo bem. Mas poderia engordar um pouco…
_O problema é que eu como bastante e nunca engordo.
Aquela pobre senhora estava passando uns dias na serra gaúcha.
Eu queria lhe dar uma história. Eu precisava lhe dar uma história.
E lhe dei.
_Já tentou manteiga no palito? – Perguntei.
_Q-Quê?
_Pega um bastão de manteiga, coloca um palito de picolé nele e come.
_Ah! Não é possível!!! Vocês não fazem isso!!!
_Fazemos. E olha pra mim. Só de camiseta. Não sinto frio.
_Você está brincando comigo. Deixe disso, menino.
_A senhora que sabe. – E olhei para o lado de fora do ônibus, pela janela.
Ela voltou a tocar o rosto e murmurava algumas palavras. Eu não entendia algumas coisas que ela dizia. Sua voz era fina e rouca ao mesmo tempo, era uma voz bonita, de gente que trabalhou bastante durante a vida – ou que ficara muito em frente à geladeira de porta aberta, por isso a rouquidão.
_Você está falando sério mesmo, menino? – Ela perguntou, interessada.
_A senhora vai pra onde? Hotel?
_Sim, vou pro hotel.
_Compra uma manteiga e come, assistindo Vale a Pena ver de Novo.
_Assim, pura? Vocês comem isso mesmo?
_Compra a manteiga com sal. Pra quem nunca comeu é melhor.
_Oxi, menino. Veja só, hein? Veja só, hein?
Cheguei no meu destino. Me despedi dela com um abraço apertado e desejei boa sorte. Disse à ela que amanhã pegaria o mesmo ônibus e ela me contaria o que achou e se já estava sentindo menos frio…
Amanhã trabalho às 8h da manhã e não estarei na rodoviária às 13h.
Uma mentira a mais, uma a menos…
L’amour dans la cuisine

Resolveu finalmente abrir os olhos, depois de esperar por mais de duas semanas e por todas as afirmações possíveis de que era seguro o fazer. E deu de cara com ela, que ao seu ver, era a perfeição, cuspida e escarrada – mesmo que, provavelmente, ele descrevesse a perfeição de outra forma que não “cuspida e escarrada”.
Ele ficou claramente encabulado. Desviando o olhar como uma criança.
Ela apenas revirou os olhos em um claro sinal de desprezo.
Ele olhou para o lado oposto da cozinha e viu o liquidificador, se ajeitando na bancada, decidido a fazer o que sua dona por muitos anos havia evitado… Tentando fazer com que sua vida útil fosse um pouco mais longa do que os cinco anos de garantia prometidos pelo vendedor quando o comprara em uma loja de eletrodomésticos com preços populares e juros baixíssimos na parcela – mesmo que os “juros baixíssimos” fossem só um adjetivo que significava algo como “estamos te dando crédito mesmo sem consultar o SPC, então não reclame que cobramos, no fim das contas, o dobro do preço de qualquer produto comprado à vista aqui mesmo”.
O liquidificador gritava aos quatro céus:
_Olhem todos! Olhem todos! Vou provar para todos vocês que eu realmente consigo fazer isso. Prestem atenção porque lá vou eu, hein?
Estufou o peito – ou o copo, como queiram – e suspirou, aliviado e feliz por finalmente comprovar o que sempre dizia às escondidas a todos seus companheiros de cozinha. Dava pra perceber que estava realmente disposto a fazer aquilo e que iria fazer. Um silêncio apavorante preencheu todos os espaços daquele humilde ambiente onde milhares de refeições já foram feitas. E o liquidificador acabou com ele – o silêncio. Começou a triturar todo o gelo que estava dentro de seu co(r)po. Sem medo de que seu co(r)po rachasse. E para o espanto de todos, ele não rachou.
_Eu disse! Eu disse! – berrava o liquidificador que, naquele momento era, sem sombra de dúvidas, a “máquina de fabricar vitaminas” mais feliz do mundo.
Depois de um grito que dizia “parem quieto que eu quero dormir”, vindo da lavanderia, uma lágrima escorreu dos olhos do espremedor de laranjas que estava ao lado do liquidificador.
Baixinho, o espremedor de laranjas ainda disse:
_Eu sabia. – indagou, comovido. E mais lágrimas caíram.

Voltando para o canto inicial da história, lá estava nosso protagonista que, se tivesse bochechas, com certeza estariam rosadas. Se amor à primeira vista existisse de fato, ele certamente estava completamente apaixonado. E pela primeira vez em toda sua existência, já que nunca tinha sentido aquilo antes. Nele, naquela hora, habitava a certeza de que só a palavra “amor” conseguiria descrever seus sentimentos por ela.
Em sua cabeça tentava formar frases que fizessem sentido e que chamassem a atenção da sua deusa, que continuava ignorando todos ali. E era esnobe com razão.
Ela era uma geladeira nova, de inox escovado, com luzes que piscavam indicando com precisão a sua temperatura. De fato, era linda e encantava até mesmo seres humanos. Mas, neste momento, só parecia importar ao pequeno e tímido botijão de gás. Ele tinha um invejável brilho nos olhos. Desses que só as crianças, os apaixonados e as pessoas que estão com conjuntivite tem. Sabem? Pois é…
_O… Oooi. – disse o botijão de gás, tímido como um gago sendo obrigado a cantar axé para uma multidão de fãs de heavy metal prontos para atacá-lo.
_Oi. – respondeu a geladeira. Seca feito um osso jogado há anos em um terreno baldio.
_Então, tudo bem contigo?
_Mais ou menos. Ando preocupada com as frutas aqui dentro.
_Hmmm. Todo dia agradeço a Deus por não ter que conservar frutas.
_E não é?! – disse ela, empolgada.
E o papo pareceu finalmente começar a fluir.
_Então, já ouviu falar que meu gás não tem cheiro? – perguntou o botijão.
_Como assim? – falou a geladeira, meio espantada.
_Pois é – disse ele, empolgado -, o cheiro é adicionado pra’s pessoas saberem quando eu estou… Bem… Quando estou vazando as pessoas sentem este cheiro muito característico e sabem que existe um perigo eminente no ar. E é de extrema importância fazer algo. No caso, me fechar. Bem fechado.
A geladeira riu, principalmente porque o botijão ficara completamente sem jeito quando falou que às vezes ele dava uma ou outra vazadinha.
Continuaram a conversa e ela durou dias, semanas, meses… Até que todos que estavam na cozinha perceberam uma coisa muito importante: Eles tinham sido abandonados. Talvez sua dona, já uma dona de idade, tivesse morrido. Talvez tivesse se perdido, sido sequestrada. Só uma coisa era certa, existia algo errado.
O tempo continuava passando, a dona não voltava para casa e o botijão de gás e a geladeira só se aproximavam cada vez mais. Porém, o botijão andava com medo de que a qualquer momento algo de muito ruim acontecesse e os dois nunca mais se vissem. Preferia nem pensar nisso… Mas podia acontecer, infelizmente era uma possibilidade. Ele nunca tinha passado mais do que três meses dentro da mesma casa… Sempre era trocado por outro cheio de gás. E já estava lá há muitos e muitos meses. Será que deram falta dele no galpão onde os botijões ficavam até serem preenchidos de gás e vendidos novamente? Ele tinha tantas perguntas e nenhuma resposta.
Eles estavam sozinhos. Eram todos eles contra o tempo. E a garantia sempre expira.
De tanto tempo se exibindo, o liquidificador já estava com seu co(r)po rachado.
O aspirador de pó tinha tido uma overdose de tanto, acreditem, aspirar pó.
A cesta de lixo virou uma festa rave de todas as baratas do bairro.
A televisão de 14″ estava em depressão de tanto assistir a si mesma.
O espremedor já sabia de cor e salteado que existiam 384 ajulejos na cozinha.
Se não bastasse, o fogão ameaçava cometer suicídio. Mas ele tinha seis bocas e o coitado falava pelos cotovelos – não que ele tivesse um cotovelo.
Talvez por insistência do botijão, talvez não, a geladeira começou a encontrar semelhanças com aquele que tanto lhe mostrava apreço. Eles estavam, no mínimo, ligados por uma amizade incrivelmente surpreendente…
Tinha cheiro de amor no ar. Não, não. Não era cheiro de amor.
Depois de tantos anos ali sem ninguém por perto, nada mais justo do uma mangueira ressecada pelo tempo. Vazando… O cheiro não era de amor, era de gás.
Nosso protagonista estava se esvaindo. O fogão não parava de falar que não queria morrer, que estava só brincando. Que horror, como falava aquele fogão.
A geladeira e o botijão sabiam que era só questão de tempo para que ele se fosse.
Seu amigo, ou amor, iria morrer. Isso era fato e nada dentro daquela cozinha tão bem habitada poderia fazer alguma coisa.
Suas últimas palavras foram proferidas enquanto olhava nos olhos da geladeira.
_Eu… Te… Amo…
Ela respondeu:
_Eu também te amo.
Vendo que seu amado tinha morrido sem ouvir suas palavras, gritou, meio que por instinto; meio que tentando fazer com que suas palavras fossem ouvidas; meio que sabendo que ele não ouviria; meio que tendo certeza de que ninguém naquela cozinha lhe importava além dele; gritou. Gritou muito alto:
_EU TAMBÉM TE AMO!!!
Gritou tão alto que sua porta, meio que sem querer, se abriu.
Sua lâmpada, desligada por tanto tempo, meio que ligou.
Ao ligar, depois de anos desligada, meio que fez uma faísca.
O gás, já espalhado por toda a casa, meio que encostou nela.
E em meio a tantos “meios”, uma explosão. Por completo.
Morreram, os dois. E todos os outros. Assim como essa história desconhecida.
Meio que faz sentido pensar “não se faz mais eletrodomésticos como antigamente”.

Dedicado à Manuela, minha geladeira.
Artur, seu desgraçado

Ontem eu estava sentado esperando o ônibus e uma mulher sentou ao meu lado. Me cumprimentou logo que chegou e pude perceber, pelas suas roupas e seu jeito de falar, que era muito simples. Que tivera uma vida difícil. Pelas suas mãos dava quase pra afirmar com certeza que trabalhava com faxina, pelo seu sorriso amarelo, era fácil constatar que a mesma dedicação que tinha para cuidar da casa de alguém não era tao grande em relação a sua saúde bucal. Talvez não tivera motivação para se cuidar.
Tirou um celular da bolsa, que também era surrada, bem puída, e começou a escutar música em seus fones de ouvido. Logo um “BIP” alertou que uma mensagem tinha chegado. E ela, depois de lê-la, desabou a chorar. Uma mágoa tomou conta de mim e a vontade de ampará-la foi maior do que qualquer receio ou vergonha.
Então, seguiu o diálogo:
_O que aconteceu com senhora?
_Pode me chamar de Amélia.
_Tudo bem, dona Amélia. O que aconteceu?
_O Artur aconteceu, de novo.
_Se acalme. Tente ficar calma, por favor.
_Já fiquei calma por muito tempo.
E pôs-se a chorar. Aos gritos, prantos. Insisti para que ela parasse mas, a este momento, seu nariz que lembrava o formato de um morango também estava ficando da mesma cor da fruta. Uma lástima. Maquiagem borrada, rosto encharcado e nariz escorrendo. Todos olhavam e eu já não me importava. Precisava ajudá-la.
_A senhora fuma? Quer um cigarro pra tentar se acalmar?
_Quero. – e pegou-o do maço, que já estava estendido.
_Então, por que a senhora está chorando, dona Amélia.
_O Artur, desgraçado, aprontou mais uma.
_Artur é seu marido? – indaguei.
_Sou viúva há 15 anos. Artur é meu vizinho.
_O que ele fez?
_Aprontou mais uma das dele.
Eu, mesmo que um ser humano bondoso que só queria o bem daquela pobre alma, estava me mordendo de curiosidade para saber o que este infeliz tinha feito a esta velha senhora. Mas não havia jeito de ela se controlar.
_Amélia, quer tomar um café e tentar relaxar um pouco?
_Só quero chegar o quanto antes em casa e falar com este bastardo.
Faço uma pausa só pra afirmar que ela realmente usou “bastardo” para xingar o Artur.
_O Artur?
_O Artur.
_Eu sei que não é da minha conta. Mas o que ele fez pra senhora?
_Meu filho, sabe aquelas figueiras?
_As árvores?
_Sim. Então…
Antes de responder ela tirou um lenço velho e puído da mesma bolsa velha e puída. Assoou o nariz e, mesmo sem dobrar o lenço para evitar maltratar ainda mais a bolsa, o enfiou às pressas dentro dela.
_O Artur tem uma dessas dentro do pátio dele e…
Dona Amélia parou de falar. Ficou fitando o horizonte que trazia, junto dele, a sombra de um ônibus que às pressas se aproximava. Estava atrolhado de outras Amélias, Artures e suas duras e nunca contadas histórias de vida.
_Desculpe, mas esse é o meu ônibus e só daqui a meia-hora outro vem. Preciso pegar ele. Desculpe mesmo. Obrigado por me ouvir, mesmo que por tão pouco tempo.
Levantou-se, apagou o cigarro com o tênis já gasto pelo tempo e guardou o celular.
Entrou no ônibus, limpando o rosto molhado pelas lágrimas.
Hoje, na mesma hora, estive no mesmo ponto de ônibus.
Dona Amélia não deu às caras por lá.
Espero que ela esteja bem.
A figueira também.
Continuo curioso.

















































