Colunista por um dia #2 – Aos quarenta

Ele começou a pensar em felicidade quando ainda era franzino e ingênuo. Devia ter pelo menos uns quarenta quilos, número proporcional à quantidade de espinhas que recheavam seu rosto e parte do pescoço. Ainda não tinha obtido a graça de Deus de poder experimentar o sexo em todos os seus sentidos e níveis. Tinha procurado por isto, mas as respostas negativas o tornaram mais virgem do que nunca. Sabia que sua hora chegaria, suas pernas ficariam trêmulas, as palmas de suas mãos suariam e sua boca salivaria pelos lábios alheios, num sinal de desejo e medo pelo desconhecido.
Ao longo de seu crescimento físico e espiritual, experimentou pouco. Casou-se uma vez, mesmo que não completamente apaixonado. Manteve-se sempre lúcido e racional diante de situações onde normalmente as pessoas se descontrolariam. Separou-se depois de tanta monotonia.
Teve a oportunidade de conhecer a verdadeira paixão aos seus quarenta anos. A aura da mulher que o envolvera o fazia transbordar de uma sensação que causava medo e prazer. Certa vez ela o despiu de qualquer forma de defesa ao lhe propor uma prova de amor: primeiro ela teria que transar com outro homem. Logo em seguida, ele deveria transar com outra mulher, e ela, voyer, deveria ficar olhando e só olhando. Se o amor entre os dois sobrevivesse a essas duas situações extremas, então poderiam casar e permanecerem juntos pelo resto da vida. Ele contestou até onde conseguiu, porém aceitou o desafio diante da possibilidade dela sair de sua vida se ele não tentasse.
A primeira noite de amor alheio aconteceu e ele resistiu ao observar cada detalhe sórdido da relação carnal que se desenrolou diante de seus olhos. Ela transou com outro homem sem qualquer constrangimento e o beijou no final de tudo, como se nada tivesse acontecido.
Agora era chegada a sua vez. Transar com outra mulher para que o trato se cumprisse e a prova fosse vencida. Repugnou a situação antes mesmo de tocar suas mãos na prostituta. Sua mulher não pensou duas vezes e sumiu de sua vida, convencida de que o amor entre os dois não era merecedor de qualquer tentativa de sobrevivência.
Até hoje ele não conseguiu entender a moral da história. Ficou apenas estarrecido pela coragem e crueza daquela mulher pela qual se apaixonou, mas não teve coragem de viver a seu lado. Pensou sempre na felicidade e a felicidade pensou pouco nele.

João Ramos escreve textos como forma de abrir novas janelas para uma realidade imaginária, através de personagens anônimos que provocam reflexão, ou mesmo espanto.
No Twiiter dele você poderá acompanhar mais alguns devaneios….

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5 comentários para “ Colunista por um dia #2 – Aos quarenta ”
A honra é relativa. Eu poderia dizer que honra msm seria ele ter trasado com a “outra” na frente da mulher e depois ter transado com a própria mulher….uma espécie de “honra masculina”.
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homem de honra